Quanto Vale O Show?

Acesse as redes sociais (a sua escolha) e pare um pouco para observar mais de perto algumas das 500 milhões de imagens postadas diariamente. Todos estão felizes, satisfeitos, são bem sucedidos, têm os melhores amigos, frequentam os melhores lugares, são muito fodas e (segura esse recalque, miga!) têm um séquito de invejosos que não fazem nada a não ser desejar ser um desses "todos". Ô, vidão!

Mas, e você

Você é aquele ser esquecido pelos deuses, que tem uns dias bons aqui e ali, acorda com um bafo de tigre louco, descabelado como uma boneca velha, e puto porque mais uma vez dormiu tarde à beça sabendo que o despertador não tem coração de mãe, não sabe o seu nome e vai te expulsar da cama sem beijinho de bom dia.

Ou seja, você é normal, meu caro, e essa é a sua sentença. 

Você está condenado desde o nascimento a lidar com você mesmo, a lutar ferozmente contra o seu ego, e a se ferrar no amor algumas tantas vezes; está fadado a ficar louco de raiva das políticas públicas do seu país, a tirar míseras férias de 30 dias, não ter dinheiro para viajar para bem longe, e a se perguntar quase que toda noite "o que você fez pra merecer isso". 
Você (sim, você!) está predestinado a achar a vida uma merda alguma vezes, a querer sumir sem deixar rastro nem cheiro, a achar que a fila do lado no mercado obviamente está andando mais rápido porque você, seu grande azarado, sempre escolhe a fila que tem uma funcionária trabalhando em slowmotion.

A sua normalidade faz você jurar que vai pagar a fatura total do cartão de crédito da próxima vez (fail), a esquecer uma ou outra data importante, e a jiboiar na cama com a Netflix num domingo modorrento em vez de fazer como todos que estão fotografando a vida intensamente com os melhores amigos, nos melhores lugares, nas melhores festas.

Haverá dias em que você (seu normal) não encontrará nenhuma motivação para levantar da cama, vai ansiar ardentemente pelo bis grandioso do meteoro dos dinossauros, e talvez se questione seriamente sobre as razões de se estar vivo. É quase certo que, em dias assim, você sinta a garganta fechar, o coração apertar como se usasse um espartilho da era pós Renascimento, e um choro agoniado pareça querer te botar de joelhos. 

Há uma música da banda FOLKS que diz assim: 

"então chora, bota pra fora tudo aquilo que o mundo não quer escutar. Deixa a maquiagem borrar."

Chore. Depois, com o peito vazio da dor, e a reserva de energia novamente num patamar seguro, você vai conseguir enxergar aquilo que já está cansado de saber: não há festa em nenhum lugar. Há, sim, muita responsabilidade nas escolhas e decisões. Estamos na vida pra fazer o melhor que pudermos dentro de nossas limitações pessoais. Tente apenas se divertir entre uma e outra tomada de fôlego. 

CH


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